top of page

Melanoma subungueal: como reconhecer, diagnosticar e tratar o melanoma na unha

Foto do escritor: Dr. Luiz Fernando Nunes
Dr. Luiz Fernando Nunes
há 11 minutos
7 min de leitura

Uma faixa escura apareceu na sua unha. Pode ser apenas uma alteração benigna ou um sinal de melanoma?


Melanoma subungueal com faixa escura longitudinal na unha, ilustrando sinais, diagnóstico e tratamento do melanoma na unha.

Nem toda mancha escura na unha representa um câncer. Entretanto, algumas alterações merecem investigação, especialmente quando surgem recentemente, aumentam de tamanho ou apresentam mudanças na coloração e na estrutura da unha.


O melanoma subungueal é um tipo incomum de melanoma que se desenvolve no aparelho ungueal, podendo atingir unhas das mãos ou dos pés.


Por sua localização e pela semelhança com condições benignas, seu diagnóstico pode ser tardio.

Reconhecer os sinais suspeitos e compreender como é realizada a investigação são passos importantes para um tratamento adequado.


O que é melanoma subungueal?


O melanoma subungueal é um tumor maligno originado dos melanócitos, células responsáveis pela produção de melanina. Ele se desenvolve nas estruturas do aparelho ungueal, frequentemente na matriz da unha. Pode acometer qualquer dedo, embora seja frequentemente identificado no polegar e no hálux, o primeiro dedo do pé.


Diferentemente de muitos melanomas cutâneos, o melanoma subungueal não apresenta uma relação direta bem estabelecida com a exposição solar. Uma característica importante é que a doença pode permanecer inicialmente restrita ao aparelho ungueal, mas também pode apresentar crescimento invasivo. Por isso, o diagnóstico e o planejamento do tratamento dependem das características específicas da lesão.


Quais são os sinais de melanoma na unha?


Uma das apresentações mais conhecidas é a melanoniquia longitudinal, caracterizada por uma faixa escura que acompanha o crescimento da unha. Entretanto, existem diversas causas benignas de melanoniquia. Algumas características podem aumentar a suspeita de melanoma:


●      Faixa escura que aparece em uma única unha, especialmente na idade adulta.

●      Aumento progressivo da largura da faixa.

●      Pigmentação irregular, com diferentes tonalidades.

●      Alterações ou destruição da lâmina ungueal.

●      Pigmentação que se estende para a pele ao redor da unha.

●      Lesões persistentes, com sangramento ou alterações progressivas.


O melanoma ungueal também pode ocorrer sem pigmentação evidente, sendo chamado de melanoma amelanótico. O mais importante não é identificar um sinal isolado, mas avaliar o conjunto das alterações e sua evolução.


Estudos recentes demonstram que a intensidade da pigmentação, sua irregularidade, as mudanças ao longo do tempo e as alterações da lâmina ungueal são características relevantes na investigação.


O que é o sinal de Hutchinson?


O sinal de Hutchinson corresponde à extensão da pigmentação da unha para a pele ao redor dela.

É um achado clínico importante, frequentemente associado ao melanoma subungueal. Entretanto, sua presença não confirma necessariamente o diagnóstico.


Algumas condições benignas podem apresentar uma aparência semelhante, conhecida como pseudo-Hutchinson. Da mesma forma, a ausência desse sinal não exclui a possibilidade de melanoma. Por isso, o sinal de Hutchinson deve ser interpretado em conjunto com a avaliação clínica e dermatoscópica.


Melanoma subungueal pode ser confundido com hematoma ou micose?


Sim.


Um hematoma subungueal, causado por trauma, pode produzir uma mancha escura semelhante à observada em algumas lesões pigmentadas. A diferença está, muitas vezes, no comportamento ao longo do tempo. O hematoma tende a acompanhar o crescimento da unha, deslocando-se progressivamente em direção à sua extremidade.


Já uma lesão pigmentada originada na matriz ungueal pode apresentar um padrão diferente.

Além disso, algumas alterações provocadas por infecções, doenças inflamatórias e outras condições benignas também podem dificultar o reconhecimento do melanoma. Por isso, uma alteração persistente ou progressiva não deve ser automaticamente atribuída a trauma ou micose sem avaliação adequada.


Como é feito o diagnóstico do melanoma subungueal?


A investigação começa pela avaliação clínica. O médico analisa a história da alteração, sua evolução, a distribuição da pigmentação e as características da unha. A dermatoscopia do aparelho ungueal, também chamada de onicoscopia, permite observar detalhes que não são facilmente identificados a olho nu. Entretanto, quando existe suspeita clínica relevante, pode ser necessária uma biópsia.


Como é realizada a biópsia da unha?


A biópsia consiste na retirada de uma amostra de tecido para exame anatomopatológico.

No aparelho ungueal, esse procedimento exige planejamento cuidadoso. A escolha da técnica depende da localização da lesão, de suas características e da necessidade de avaliar uma possível invasão tumoral.


Uma amostra inadequada pode dificultar o diagnóstico e a avaliação da profundidade do melanoma. Por isso, a biópsia deve ser realizada por profissional com experiência na investigação das doenças do aparelho ungueal. O objetivo é obter um diagnóstico preciso, preservando as estruturas da unha sempre que possível.


Por que o diagnóstico precoce é tão importante?


O melanoma subungueal frequentemente apresenta desafios para o diagnóstico precoce.

Em um estudo publicado em 2018 no Journal of Surgical Oncology, analisamos 157 pacientes com melanoma subungueal tratados no Instituto Nacional de Câncer (INCA).


A pesquisa identificou características importantes da apresentação e do prognóstico desses pacientes. A espessura mediana dos tumores foi de 6 mm, demonstrando que muitos pacientes já apresentavam lesões espessas no momento do diagnóstico. Além disso, aproximadamente 60% dos tumores apresentavam ulceração.


A espessura de Breslow e a presença de ulceração foram fatores associados à sobrevida dos pacientes. Esses resultados reforçam a importância de reconhecer alterações suspeitas e realizar uma investigação adequada.


É importante destacar que os resultados desse estudo representam uma população específica de pacientes tratados em um centro oncológico e não devem ser interpretados como o prognóstico individual de qualquer pessoa com melanoma subungueal.


Como é feito o tratamento do melanoma subungueal?


O tratamento depende das características do melanoma, especialmente sua profundidade, extensão e eventual comprometimento de estruturas adjacentes. A cirurgia desempenha um papel central no tratamento da doença localizada. O objetivo é remover completamente o tumor, respeitando os princípios oncológicos.


Durante muitos anos, a amputação foi frequentemente utilizada no tratamento do melanoma subungueal. Entretanto, a abordagem cirúrgica evoluiu. Atualmente, em pacientes selecionados, é possível considerar técnicas que preservem o dedo.


Melanoma subungueal precisa sempre de amputação?


Não. Nem todo paciente com melanoma subungueal precisa amputar o dedo.


Em determinadas situações, especialmente nos melanomas iniciais, pode ser possível realizar uma cirurgia conservadora. Essa abordagem busca remover adequadamente o tumor, preservando a função do dedo. Entretanto, a cirurgia conservadora não é indicada para todos os pacientes.


A decisão depende de fatores como a profundidade do melanoma, sua extensão, o comprometimento das estruturas profundas e a possibilidade de obter uma ressecção oncologicamente adequada.


Estudos recentes têm investigado a segurança da cirurgia funcional, inclusive em alguns melanomas invasivos. Uma pesquisa multicêntrica envolvendo pacientes do Brasil e do México, publicada em 2025, apresentou resultados favoráveis à preservação do dedo em casos selecionados.


Outro estudo, publicado em 2026 no European Journal of Surgical Oncology, também apresentou resultados encorajadores em pacientes com melanoma invasivo sem evidência radiológica de comprometimento ósseo. Entretanto, os estudos ainda apresentam limitações, especialmente pelo número reduzido de pacientes e pelo tempo de acompanhamento.


Portanto, a preservação do dedo deve ser considerada individualmente, sem comprometer a segurança do tratamento oncológico.


Quando é possível preservar o dedo?


A decisão depende de uma avaliação cuidadosa. Entre os aspectos considerados estão a profundidade do melanoma, sua extensão, a localização da lesão e a presença de. comprometimento das estruturas profundas. Em determinadas situações, exames de imagem podem auxiliar no planejamento cirúrgico.


O objetivo é definir uma operação capaz de remover adequadamente o tumor, preservando função sempre que isso for oncologicamente apropriado. Essa é uma das principais mudanças na abordagem contemporânea do melanoma subungueal.


O tratamento não deve ser mais extenso do que o necessário, mas também não pode ser insuficiente para controlar adequadamente a doença.


É necessário realizar a biópsia do linfonodo sentinela?


Em determinados pacientes com melanoma invasivo, pode ser indicada a biópsia do linfonodo sentinela. Esse procedimento permite investigar a presença de células tumorais nos primeiros linfonodos que recebem a drenagem linfática da região do melanoma. Sua indicação depende principalmente das características do tumor, incluindo a espessura de Breslow e a presença de ulceração. Nem todos os pacientes com melanoma subungueal precisam realizar esse procedimento. A decisão deve fazer parte do planejamento individualizado do tratamento.


Quando procurar um especialista?


Uma alteração na unha merece avaliação quando apresenta características suspeitas, especialmente se for progressiva, irregular ou persistente. Isso não significa necessariamente que exista um melanoma. Significa que a alteração precisa ser compreendida.


Quando o diagnóstico de melanoma é confirmado, a avaliação por uma equipe com experiência no tratamento dessa doença permite discutir as possibilidades terapêuticas e planejar adequadamente a cirurgia.


Considerações finais


O melanoma subungueal é uma doença incomum, mas que merece atenção pela dificuldade de reconhecimento e pelas particularidades do tratamento. Nem toda faixa escura na unha representa melanoma. Entretanto, alterações suspeitas precisam ser investigadas.

Quando o diagnóstico é confirmado, o planejamento cirúrgico deve considerar tanto o controle oncológico quanto a preservação funcional.


No melanoma subungueal, reconhecer a alteração é importante. Mas é o diagnóstico correto que permite planejar o tratamento adequado.


Sobre o autor


Dr. Luiz Fernando Nunes — Cirurgião Oncológico

Médico formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com residência em Cirurgia Geral e Cirurgia Oncológica.

Mestre em Saúde Pública pela ENSP/Fiocruz e Doutor pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA), com pesquisa dedicada ao melanoma acral.

Sua atuação concentra-se no tratamento cirúrgico do melanoma, incluindo melanoma acral e subungueal, sarcomas e outros tumores cutâneos.

É autor de pesquisas científicas publicadas em periódicos internacionais, incluindo um estudo sobre 157 pacientes com melanoma subungueal tratados no INCA.

Atende em consultório particular no Leblon, Rio de Janeiro.

CRM-RJ 52.62888-3


Referências científicas


1. Nunes LF, Mendes GLQ, Koifman RJ.Subungual melanoma: A retrospective cohort of 157 cases from Brazilian National Cancer Institute.Journal of Surgical Oncology. 2018;118(7):1142–1149.DOI: 10.1002/jso.25242. Consultar artigo no PubMed


2. Ricardo JW, Bellet JS, Jellinek N, et al.Evaluation and diagnosis of longitudinal melanonychia: A clinical review by a nail expert group.Journal of the American Academy of Dermatology. 2025;93(1):176–187.DOI: 10.1016/j.jaad.2025.02.075.


3. Lee SG, Oh BH, Chung KY, Roh MR.Looking Beyond the Hutchinson Sign: A Retrospective Study of Clinical Factors Indicating the Presence and Invasiveness of Nail Unit Melanoma in Patients With Longitudinal Melanonychia.Dermatologic Surgery. 2024;50(1):21–27.


4. Bang JS, Kim JY.Clinical differences between Hutchinson's sign in subungual melanoma and pseudo-Hutchinson's sign in benign longitudinal melanonychia.Journal of the American Academy of Dermatology. 2026;94(2):478–484.DOI: 10.1016/j.jaad.2025.10.089.


5. Ocampo-Garza J, Peña-Romero AG, Bertolli E, et al.Non-Amputative Digit Preservation Surgery versus Amputation in Nail Unit Melanoma: A Retrospective Study in Mexico and Brazil.Skin Appendage Disorders. 2025.DOI: 10.1159/000544995.


6. Lee ES, Park JH, Lee DY, Mun GH, Lee KT.

Functional surgery for invasive nail apparatus melanoma: A cohort study and systematic review.

European Journal of Surgical Oncology. 2026;52(7):111885.

DOI: 10.1016/j.ejso.2026.111885.

 
 
 

Comentários


bottom of page